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A Visão Budista sobre LGBTQ e Tabagismo

Published on 26 December 2020

Rinpoche falou ao "The Bhutanese" sobre LGBTQ e tabagismo dentro do contexto budista de procurar e ver a verdade.

Veja o artigo original, em inglês, aqui: https://thebhutanese.bt/the-buddhist-view-on-lgbtq-and-smoking/

 

A Visão Budista sobre LGBTQ e Tabagismo

MUITO foi dito e vem sendo dito sobre a forma como os budistas enxergam a questão LGBTQ e o tabagismo. O debate voltou à tona depois de o Butão ter revogado temporariamente sua infame proibição ao tabagismo durante a quarentena da Covid-19 no país. Com o Butão tornando-se o mais novo país a descriminalizar a homossexualidade, o debate se expandiu. A opinião da mídia ocidental é a de que ambos os assuntos, LGBTQ e tabagismo, são vistos na sociedade budista como uma desgraça e moralmente errados mesmo que as restrições venham sendo diminuídas no Butão, um país de cultura fortemente budista, mostrando o seu reflexo na essência da prática e visão budista, como ensinado pelo próprio Buda. Nada poderia estar mais distante da verdade, disse Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche, o lama, pensador, escritor e cineasta butanês, contribuindo para o debate. Em conversa com o autor, ele disse que tal percepção das atitudes budistas em relação a LGBTQ e tabagismo são muito mais um reflexo da cultura do que dos ensinamentos budistas propriamente ditos. Mas não quer dizer que fumar não seja fatal.


Ao descriminalizar a homossexualidade, o Butão se torna o mais novo país a caminhar na direção de diminuir as restrições aos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. Qual é a visão budista sobre LGBTQ e sobre sexo em geral?


Como cidadão butanês, eu estou muito orgulhoso de ver o Butão dando passos tão grandes e precisos para descriminalizar a homossexualidade.
Como budistas, nosso caminho não permite má conduta sexual ou qualquer forma de abuso, mas não há nenhum sutra (coleção de ensinamentos concedidos pelo Buda), shastra ou tantra que tenha apontado o sexo como sendo sujo, pecado ou tabu. Então isso não é uma questão para nós.
Mais precisamente, os budistas olham para qualquer objeto de desejo, luxúria e ganância com cautela e atenção plena. Mas isso não acontece apenas com o sexo. Poderia ser comida, qualquer forma de ganho material ou poder, os quais corrompem nossas mentes nas formas mais sutis. 
Portanto, orientação sexual nunca deveria ter sido uma questão determinante para um budista. Na verdade, como seguidores do Budismo Mahayana, que o Butão oficialmente pratica, nós deveríamos respeitar e até celebrar os diferentes estilos de vida e formas de pensar. Nós deveríamos nos opor a qualquer tipo de preconceito e erradicar atitudes como “tudo tem que ser do meu jeito”. Então, vindo de um país onde a maioria dos cidadãos são budistas, estou muito feliz que o governo butanês tenha dado esse importante passo.
Ao mesmo tempo, nós sabemos que não é fácil se livrar de velhos hábitos, preconceitos e discriminações - não apenas no Butão mas, como eu tenho visto, também em sociedades ocidentais que afirmam ser as mais avançadas, abertas e liberais do mundo. Mas temos que fazer o nosso melhor.
Vale a pena observar também que o código penal do Butão foi redigido e entrou em vigor no ano de 2004. E como tantas outras coisas que adotamos da Índia, como a atitude burocrata e o uso da língua inglesa, muitas das nossas leis também foram redigidas baseadas no código penal da Índia, o qual, por sua vez, foi em grande parte elaborado pelos britânicos há mais de duzentos anos. Então, na verdade, a percepção de sodomia como algo “não natural” está enraizada em religiões bem diferentes da nossa.
Existe essa percepção internacional de que os budistas enxergam o tabagismo como pecado. Algumas das nossas mídias locais afirmam que o próprio Guru Rinpoche era contra o uso de todas as formas de tabaco. Qual é a visão budista sobre o hábito de fumar e o tabaco?
Qualquer percepção internacional de que os budistas consideram o hábito de fumar e o uso de tabaco como um pecado é simplesmente errada. Para começar, os budistas nem mesmo possuem o conceito de pecado. E em muitos países de cultura Theravada com uma grande população budista que pratica a mais ortodoxa das escolas do budismo, mesmo monges fumam. Então, tornar-se budista certamente não significa que você deve parar de fumar ou usar qualquer tipo de tabaco.
Dito isto, o budismo desencoraja o consumo de qualquer intoxicante. Isso porque nós nos preocupamos em enxergar a verdade, e tudo o que nos afasta disso é considerado um obscurecimento.  Então, por escolha própria, um budista pode decidir seguir o princípio de não usar intoxicantes, o qual inclui todos os tipos de drogas, inclusive álcool.
Infelizmente códigos de conduta moral, os quais são frequentemente baseados em preconceitos culturais, são então mal interpretados como códigos de conduta budistas. Então é irônico, por exemplo, que o Butão condene tabaco e não o álcool, mesmo que ambos sejam intoxicantes e causem prejuízos e danos em nossa sociedade. Alguns butaneses menosprezam o ato de inalar substâncias através de um narguilé, mas esses tabus são criados por humanos e não têm nada a ver com o budismo.
Como você perguntou sobre a visão de Guru Rinpoche sobre esse assunto, é importante lembrar que o Vajrayana é muito vasto e totalmente não dogmático. Portanto, a partir de uma perspectiva estritamente Vajrayana, qualquer distinção dualista pode ser desafiada, incluindo aquelas inseridas nas normas socialmente aceitas. Então, por exemplo, com o objetivo de desafiar o tradicional desprezo dos indianos brâmanes por carne e álcool, o Vajrayana usa deliberadamente essas substâncias. Mas isso nunca deve ser interpretado como o Vajrayana permitindo ou encorajando o consumo de álcool ou carne. Isso deve ser visto como uma prática budista de não diferenciação.   
Dessa perspectiva, é verdade que alguns “tesouros de ensinamentos”, os quais são praticamente todos associados a Guru Rinpoche, dão alertas específicos e sérios sobre o tabaco e o tabagismo. Mas muitos estudiosos especulam que esses alertas eram associados a substâncias como o ópio, que pode realmente degenerar os canais, chakras e pranas. Além disso, não há qualquer texto tântrico raiz que mencione, de forma específica ou clara, qualquer proibição sobre fumar ou sobre o tabaco.

Muito foi dito e vem sendo dito sobre a forma como os budistas enxergam a questão LGBTQ e o tabagismo. O debate voltou à tona depois de o Butão ter revogado temporariamente sua infame proibição ao tabagismo durante a quarentena da Covid-19 no país. Com o Butão tornando-se o mais novo país a descriminalizar a homossexualidade, o debate se expandiu. A opinião da mídia ocidental é a de que ambos os assuntos, LGBTQ e tabagismo, são vistos na sociedade budista como uma desgraça e moralmente errados mesmo que as restrições venham sendo diminuídas no Butão, um país de cultura fortemente budista, mostrando o seu reflexo na essência da prática e visão budista, como ensinado pelo próprio Buda. Nada poderia estar mais distante da verdade, disse Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche, o lama, pensador, escritor e cineasta butanês, contribuindo para o debate. Em conversa com o autor, ele disse que tal percepção das atitudes budistas em relação a LGBTQ e tabagismo são muito mais um reflexo da cultura do que dos ensinamentos budistas propriamente ditos. Mas não quer dizer que fumar não seja fatal.

Ao descriminalizar a homossexualidade, o Butão se torna o mais novo país a caminhar na direção de diminuir as restrições aos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. Qual é a visão budista sobre LGBTQ e sobre sexo em geral?

Como cidadão butanês, eu estou muito orgulhoso de ver o Butão dando passos tão grandes e precisos para descriminalizar a homossexualidade.

Como budistas, nosso caminho não permite má conduta sexual ou qualquer forma de abuso, mas não há nenhum sutra (coleção de ensinamentos concedidos pelo Buda), shastra ou tantra que tenha apontado o sexo como sendo sujo, pecado ou tabu. Então isso não é uma questão para nós.

Mais precisamente, os budistas olham para qualquer objeto de desejo, luxúria e ganância com cautela e atenção plena. Mas isso não acontece apenas com o sexo. Poderia ser comida, qualquer forma de ganho material ou poder, os quais corrompem nossas mentes nas formas mais sutis.

Portanto, orientação sexual nunca deveria ter sido uma questão determinante para um budista. Na verdade, como seguidores do Budismo Mahayana, que o Butão oficialmente pratica, nós deveríamos respeitar e até celebrar os diferentes estilos de vida e formas de pensar. Nós deveríamos nos opor a qualquer tipo de preconceito e erradicar atitudes como “tudo tem que ser do meu jeito”. Então, vindo de um país onde a maioria dos cidadãos são budistas, estou muito feliz que o governo butanês tenha dado esse importante passo.

Ao mesmo tempo, nós sabemos que não é fácil se livrar de velhos hábitos, preconceitos e discriminações - não apenas no Butão mas, como eu tenho visto, também em sociedades ocidentais que afirmam ser as mais avançadas, abertas e liberais do mundo. Mas temos que fazer o nosso melhor.

Vale a pena observar também que o código penal do Butão foi redigido e entrou em vigor no ano de 2004. E como tantas outras coisas que adotamos da Índia, como a atitude burocrata e o uso da língua inglesa, muitas das nossas leis também foram redigidas baseadas no código penal da Índia, o qual, por sua vez, foi em grande parte elaborado pelos britânicos há mais de duzentos anos. Então, na verdade, a percepção de sodomia como algo “não natural” está enraizada em religiões bem diferentes da nossa.

Existe essa percepção internacional de que os budistas enxergam o tabagismo como pecado. Algumas das nossas mídias locais afirmam que o próprio Guru Rinpoche era contra o uso de todas as formas de tabaco. Qual é a visão budista sobre o hábito de fumar e o tabaco?

Qualquer percepção internacional de que os budistas consideram o hábito de fumar e o uso de tabaco como um pecado é simplesmente errada. Para começar, os budistas nem mesmo possuem o conceito de pecado. E em muitos países de cultura Theravada com uma grande população budista que pratica a mais ortodoxa das escolas do budismo, mesmo monges fumam. Então, tornar-se budista certamente não significa que você deve parar de fumar ou usar qualquer tipo de tabaco.

Dito isto, o budismo desencoraja o consumo de qualquer intoxicante. Isso porque nós nos preocupamos em enxergar a verdade, e tudo o que nos afasta disso é considerado um obscurecimento. Então, por escolha própria, um budista pode decidir seguir o princípio de não usar intoxicantes, o qual inclui todos os tipos de drogas, inclusive álcool.

Infelizmente códigos de conduta moral, os quais são frequentemente baseados em preconceitos culturais, são então mal interpretados como códigos de conduta budistas. Então é irônico, por exemplo, que o Butão condene tabaco e não o álcool, mesmo que ambos sejam intoxicantes e causem prejuízos e danos em nossa sociedade. Alguns butaneses menosprezam o ato de inalar substâncias através de um narguilé, mas esses tabus são criados por humanos e não têm nada a ver com o budismo.

Como você perguntou sobre a visão de Guru Rinpoche sobre esse assunto, é importante lembrar que o Vajrayana é muito vasto e totalmente não dogmático. Portanto, a partir de uma perspectiva estritamente Vajrayana, qualquer distinção dualista pode ser desafiada, incluindo aquelas inseridas nas normas socialmente aceitas. Então, por exemplo, com o objetivo de desafiar o tradicional desprezo dos indianos brâmanes por carne e álcool, o Vajrayana usa deliberadamente essas substâncias. Mas isso nunca deve ser interpretado como o Vajrayana permitindo ou encorajando o consumo de álcool ou carne. Isso deve ser visto como uma prática budista de não diferenciação.

Dessa perspectiva, é verdade que alguns “tesouros de ensinamentos”, os quais são praticamente todos associados a Guru Rinpoche, dão alertas específicos e sérios sobre o tabaco e o tabagismo. Mas muitos estudiosos especulam que esses alertas eram associados a substâncias como o ópio, que pode realmente degenerar os canais, chakras e pranas. Além disso, não há qualquer texto tântrico raiz que mencione, de forma específica ou clara, qualquer proibição sobre fumar ou sobre o tabaco.

 

Por Kencho Wangdi (Bonz)

O autor é o mais novo editor da Kuensel e pode ser acompanhado no perfil @bonzk do Instagram