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O Buda e a mente maravilhosa, incrível

Published on 01 September 2020

Milhões de deuses juntos não conseguem vencer a mente, diz Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche, que recentemente lançou um projeto mundial para "tocar a base" com a mente e conter a pandemia.

SIDDHARTHA Gautama estava ficando cada vez mais extenuado ao longo do dia. Sua espinha dorsal se projetava como uma linha de fuso. Suas nádegas se tornaram como cascos de camelo. Suas costelas “corroeram e ruíram como as vigas de um galpão velho e podre”. E ele estava ficando inquieto.

Seis anos se passaram desde que ele deixara o palácio e vagava pela bacia do rio Ganges e pelas planícies quentes de Rajgir e Bodhgaya (atual estado indiano de Bihar) em busca de sabedoria e professores, aprendendo tudo o que havia para aprender, e crescendo sem descanso.

Ele levou uma vida de asceta que, à medida que sua busca avançava, tornou-se uma severa penitência. Ele morava sozinho e nu na floresta. Ele dormia em cemitérios. Ele comia uma vez em sete dias, uma fruta ocasional ou alguma sopa de planta selvagem.

Mas ele ainda não tinha encontrado o que estava procurando.

O conhecimento e a compreensão da realidade do samsara e do sofrimento dos seres sencientes — o ciclo de nascimento, doença, velhice, morte e renascimento, com suas emoções de dor, frustração e tristeza —, para os quais ele procurou encontrar um solução e desistiu de sua vida principesca, o iludira.

Então, um dia, quebrando os votos que havia mantido por seis anos, ele comeu mingau de leite e arroz oferecido por uma mulher local de Bodhgaya, chamada Sujata. Ele então massageou seu corpo com óleo e tomou um banho quente. Sozinho na floresta, mas fisicamente muito mais forte do que antes, ele se sentou sob uma árvore pipal uma noite, jurou não se mover até que encontrasse as respostas e começou a meditar.

No decorrer de suas meditações, o príncipe que se tornou asceta, Siddhartha Gautama, finalmente encontrou as respostas que procurava. Ele aprendeu as quatro nobres verdades da experiência humana: o sofrimento, sua causa, a possibilidade de curá-lo e seu remédio. Sabendo disso, ele foi libertado da condição humana comum e atingiu a iluminação. Ele se tornou o Buda, o que significa o iluminado, ou o desperto.

Essa história aconteceu nos séculos sexto e quinto AEC, há mais de 2.500 anos, na Índia.

O Buda foi um dos grandes homens, senão o maior homem, que já nasceu e viveu na Índia. Esse Buda não era Deus, ou seu emissário na Terra, mas um indivíduo real, que conseguiu se libertar do sofrimento humano comum e, então, por compaixão, compartilhou suas percepções com o mundo, inspirou nações e gerações de intelectuais e artistas ao longo dos tempos.

Suas ideias e ensinamentos viajaram para a China, Coreia, Japão, Sri Lanka e muitos outros países asiáticos, incluindo, ao mesmo tempo, Afeganistão e Paquistão, o último dos quais é o local de nascimento do lendário mestre tântrico do século VIII e seguidor de Buda, Guru Padmasambhava.

No século XIX, as ideias e ensinamentos de Buda chegaram à Europa e às Américas. Sendo assim foram os europeus que inventaram a palavra "budismo".

Os célebres filósofos alemães Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche falavam e escreviam com frequência e admiração sobre o Buda. O poeta e filósofo americano Henry David Thoreau traduziu uma versão francesa do Sutra de Lótus para o inglês — uma das coleções mais importantes e influentes das palavras do Buda. O famoso cientista Albert Einstein chamou o budismo de religião do futuro, porque seria compatível com a ciência moderna.

Quando a China inventou a impressora, há mais de mil anos, a primeira publicação em que trabalharam e imprimiram foi o Sutra do Diamante — uma das coleções mais célebres das palavras do Buda, que foi traduzida do sânscrito indiano para o chinês.

Foi precisamente para lembrar e celebrar um indivíduo extraordinário como o Buda, bem como seus ensinamentos, que Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche, o lama, escritor, pensador e cineasta butanês, lançou recentemente o projeto de cura global chamado “Bhumisparsha: tocando a Terra”.

O nome foi tirado da postura simbólica de uma imagem icônica de Buda: com a palma da mão esquerda erguida no colo e a mão direita tocando a terra. O gesto representa o momento do despertar do Buda, enquanto ele reivindica a terra como testemunha de sua iluminação.

O projeto tem como objetivo recitar o mantra de Buda (“Tayatha Om mune mune mahāmunaye svāhā”) 100 milhões de vezes até janeiro do próximo ano.

Siddhartha’s Intent India, o organizador do projeto, diz que a acumulação global de mantras é para o benefício da "Terra, para a humanidade, para os animais e para todos os seres sencientes". É importante ressaltar que isso é feito para ajudar a conter o curso da pandemia.

Celebridades internacionais, como o ator de Hong Kong Tony Leung e a atriz de Bollywood Juhi Chawla, deram seu apoio como participantes e influenciadores.

A acumulação de mantras já ultrapassou 50 milhões de recitações, atingindo metade da meta em pouco menos de um mês, embora se trate de um projeto de cinco meses. Muitas pessoas que têm recitado o mantra de Buda são da Ásia, mas também há participantes da Austrália, Europa, América do Norte e América do Sul. Os jovens estão na vanguarda do projeto, reunindo entusiasmo e apoio, além de coordenarem as contagens de mantras em seus respectivos países.

De acordo com Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche, assim como um indivíduo tem seu próprio carma — causas e condições que ditam sua vida —, o mesmo acontece com um grupo ou uma população de um país ou território. O fenômeno é chamado de carma coletivo. Por exemplo, o carma coletivo dos cidadãos de uma nação pode determinar o tipo de líder que eles terão ou causar o surgimento de situações voláteis, como a atual pandemia.

Mas, assim como um indivíduo tem em seu poder vários métodos para compensar seu carma negativo, o mesmo ocorre com um grupo. A recitação global e em grupo do mantra de Buda tem como objetivo contrabalançar o carma negativo coletivo dos habitantes da Terra e ajudar a pôr fim à pandemia. Isso ajudaria, por exemplo, a acelerar a busca por uma vacina eficaz, ou a causar menos mortes, ou ambos os cenários.

Além disso, existem outros benefícios em entoar o mantra de Buda. Dzongsar Khyentse Rinpoche informa que o ato de recitar esse mantra leva a pessoa a "tocar a base" da própria mente, com a própria "sanidade". Em um mundo onde há distração de todos os tipos imagináveis, estar em contato com a própria sanidade é tudo o que impede você de perder o controle de sua mente e o direciona a reassumir esse controle (e, portanto, a controlar sua própria vida).

Sentado ao ar livre em um khaat, uma cama tradicional indiana, em uma recente manhã quente e chuvosa em Bir, na Índia, um suado Dzongsar Khyentse Rinpoche falou aos participantes sobre o projeto Bhumisparsha, via Zoom.

“Os deuses não nos tornam sãos”, alertou ele, afastando os insetos que pairavam próximos ao seu rosto. “Na verdade, os deuses às vezes nos tornam mais insanos. Deuses não podem nos dar sanidade. Na verdade, ninguém pode lhe dar sanidade. Ninguém precisa lhe dar sanidade. Você tem isso em si o tempo todo. Você só precisa usá-la. Você precisa descobrir isso. Você precisa dar chance para essa sanidade florescer.”

O Buda disse que a chave para a sabedoria é a experiência, e que as qualidades de todas as experiências humanas dependem da mente. É a mente que controla a maneira como experimentamos o mundo, a maneira como o tornamos nosso mundo. A mente é a janela para a realidade de uma pessoa. A mente é o que lhe dá sanidade.

“Essa mente é simplesmente tão poderosa!”, disse Dzongsar Khyentse Rinpoche, "a máquina mais poderosa... Mesmo que milhões e milhões de deuses sejam colocados juntos, eles não podem vencer essa mente. Essa mente é incrivelmente poderosa!"

O monge indiano do século VIII Shantideva, um seguidor de Buda, escreveu: "Pela mente o mundo é conduzido. A mente oscila como um tição, a mente se eleva como uma onda, a mente queima como um incêndio na floresta. Como um grande inundar, a mente leva embora".

Então, para garantir que você não perca sua mente na toca do coelho do desejo, apego, orgulho, ciúme e ódio, que estão fadados a lhe trazer dor e sofrimento, é crucial que você fique em contato com a mente de vez em quando, se não o tempo todo, indicou Dzongsar Khyentse Rinpoche.

Uma das milhões de técnicas desenvolvidas e compartilhadas pelos sábios budistas do passado para ajudá-lo a não perder a cabeça é a prática de recitar o mantra do Buda. "É muito simples. Não há nada de complicado nisso.” E enquanto você recita, se você puder pensar no Buda, ou estar no momento presente, apenas olhando para suas pernas ou tendo consciência de sua respiração entrando e saindo, mesmo que por meio minuto, sem se distrair, isso lhe aproximará muito mais de sua mente e sua sanidade.

Dzongsar Khyentse Rinpoche afirma que os ensinamentos de Buda sobre a mente e a importância de ficar conectado a ela têm relevância especial nestes tempos turbulentos e confusos. Isso significará muito mais no futuro.