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Sobre Ser um Rinpoche

Published on 09 February 2021

Uma conversa com Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche - Buddhistdoor Global

Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche é um professor elevado da tradição Vajrayana. Nesta entrevista, ele relembra cinco décadas de sua vocação como líder religioso e professor, oferecendo alguns pensamentos francos sobre como é realmente ser um rinpoche.*

Buddhistdoor Global (BDG): Como é de fato ser um rinpoche e como isso tem mudado?

Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche (DJKR): Da mesma forma como tudo ao nosso redor, as coisas têm mudado muito no mundo budista. Até mesmo a imagem que as pessoas têm do budismo, e em especial do budismo tibetano, atualmente é muito diferente do que era nos anos de 1950, 1960 ou 1970. E também a compreensão das pessoas do propósito de haver tulkus** e rinpoches e de como eles deveriam ser treinados.

Na nossa época tivemos nossos desafios. Muitos de nós crescemos comendo batata mês após mês enquanto os rinpoches hoje podem ir aos restaurantes cinco estrelas da sua preferência e desfrutar de banquetes em bufês. Isso não quer dizer que hoje os rinpoches tenham uma vida boa. Eles apenas possuem desafios totalmente diferentes.

Nós seres humanos somos criaturas muito estranhas. Nós queremos estar sob holofotes e sonhamos em ser figuras públicas. Se ao menos soubéssemos o alto preço disso.

Lamas reencarnados podem ser vistos como detentores de posições muito privilegiadas, mas é importante entender que a maioria dos rinpoches, especialmente os da minha geração, não escolheram esse título, não batalharam e nem trabalharam por isso. A maioria de nós foi colocada nessa posição sem muita escolha e sem saber o que estava acontecendo.

Mas então você pode dizer: “Bem, agora você tem escolha”. Entretanto, é mais fácil dizer do que fazer, em especial quando você vive numa sociedade muito complicada, que tem muitas nuances culturais e expectativas, e quando você foi preparado a vida inteira para pensar e agir de certa forma. Como seres humanos, a forma como crescemos e fomos criados nos primeiros dez ou vinte anos afeta o resto da nossa vida, principalmente quando esse período inicial é isolado, cerceado e protegido da vida cotidiana. Quando os rinpoches têm vinte ou trinta anos, eles literalmente não sabem o que e como fazer qualquer coisa além daquilo para o qual foram preparados. Lastimavelmente isso significa apenas sentar no trono, oferecer um sorriso falso e fazer de conta que é uma estátua. Na verdade há até um ditado tibetano que diz “sente como uma estátua dourada''.

Em muitos aspectos, as coisas hoje em dia são muito diferentes de quando eu fui criado. Hoje em dia é frequente que pais e parentes de uma criança fiquem excessivamente ansiosos para vê-la reconhecida como rinpoche. Da mesma forma, frequentemente assistimos rinpoches sendo acusados de ser mimados e se aproveitarem dos alunos. Em certa medida, algumas dessas acusações podem ser verdadeiras. Mas a culpa de ser mimado e de viver totalmente numa bolha não deve ser colocada completamente nos rinpoches. Na verdade, para começar, a culpa deveria principalmente recair sobre a sociedade tibetana, sobre os altos lamas tibetanos e, especialmente, sobre os detentores do sistema de tulkus que tanto ignoram ou escolhem permanecer ignorantes da realidade da mudança ao longo do tempo e pelo mundo. Muito frequentemente eles são como avestruzes com a cabeça enterrada na areia de antigas e arcaicas tradições culturais que na verdade não têm nada a ver com o Darma do Buda.

Como resultado, todo o sistema de treinamento dos tulkus nunca foi atualizado para os tempos em que agora eles vivem. Inclusive seria difícil fazê-lo porque a forma como os rinpoches são treinados é muito orgânica e localizada e não há um sistema ou instituição formal para treinar tulkus assim como a Eton*** treina a elite inglesa.

Mas não são apenas os tibetanos que são culpados de tudo isso. Muitos estudantes do Darma são fascinados por esses jovens rinpoches sentados em tronos e vestidos com brocados. Esses devotos geralmente superestimam o fato de se curvar diante dessas crianças e interpretam cada gesto infantil como profundo e significativo.

Eles o adoram e louvam, levantam quando você entra, sorriem para você, se curvam, se espantam com você [por qualquer coisa] e o colocam num pedestal. Se referem a você como sendo professor e protetor deles e o tratam como um ser completamente sensato, moral e puro. Ainda que você seja apenas uma criança, esses devotos fazem você acreditar que você é o que mais sabe sobre todos os assuntos. Essa é a sua vida desde a mais tenra infância e segue assim por uma década ou mais. Por um lado você é a autoridade, então pode sempre seguir seu próprio caminho e ninguém ousa contrariar. Por outro lado, todo esse tempo, sem ter escolhido, há a expectativa de que você pareça, pense e aja de certas maneiras e não pareça ou haja de outras. Você é virtualmente aprisionado numa jaula dourada só porque a sociedade lhe deu um papel que você nunca escolheu.

Imagine que você tenha crescido desse jeito e agora você alcançou a idade de 15 ou 20 anos e subitamente tudo mudou. Você alcança a puberdade, seus hormônios começam a se enfurecer, você é atraído sexualmente por pessoas e imagens e você se torna adulto. Mesmo com tudo isso e seus hormônios indo à loucura, ainda é esperado que você se comporte e aja de forma virtuosa como se você fosse algum tipo de ser divino.

Ainda que você queira ter sua própria vida nem que seja por um dia — ser você mesmo, ficar sozinho fazendo as suas coisas — você não pode porque durante esse tempo os seus pais, seus assim chamados discípulos e toda a sociedade fizeram de tudo para que todos conheçam seu rosto. Fotos suas estão por toda a parte e cada movimento que você faz rende um falatório na cidade.

Sim, em um nível externo, estrelas de K-pop, ídolos do cinema e outras celebridades estão numa situação parecida. Mas não se espera deles que sejam guias espirituais puros e eles pelo menos escolheram suas carreiras. A maioria desses jovens rinpoches nunca teve a oportunidade de escolher essa vida. Francamente, os pais e os responsáveis por muitos desses jovens rinpoches estão destruindo vidas de seres humanos sem ao menos criar professores do Darma competentes.

Atualmente os rinpoches têm apenas uma minúscula fração do treinamento estrito que nós costumávamos receber. Os jovens rinpoches de hoje têm finais de semana, férias de inverno, folgas de verão e passeios para Goa, Bangkok e até para o Havaí, mas não têm treinamento apropriado. Na minha época nós nem sabíamos o que significava final de semana.

Então sob o pretexto da modernização, o treinamento estrito e rigoroso está agora desacreditado e foi substituído por todos os tipos de mimos, adoração e ambição dos pais, que de forma alguma auxiliam no treinamento dos rinpoches. Claro, não há desculpa para o abuso em função do rigor. Mas parece muito necessário examinar o que perdemos ao eliminar o treinamento mais completo do passado. Infelizmente, do jeito que as coisas vão, esse exame parece ser algo altamente improvável.

BDG: O sistema de tulkus continuará?

DJKR: Sim. Eu acho que o sistema de tulkus continuará por todo o tipo de motivo — tanto certos quanto errados. Mas essa não é realmente a questão e a maioria das discussões sobre continuar ou não o sistema de tulkus não toca no ponto. A questão central é a necessidade de atualizar e absolutamente repensar como treinamos não apenas os rinpoches mas também os kenpos****, os professores e outros agentes engajados com o do Darma.

Esse exame levanta muitas questões centrais tais como se os rinpoches deveriam ou não ser entronizados e se eles devem ter assistentes e um séquito. Por exemplo, quando amigos próximos me contam que recentemente descobriram um tulku, minha primeira reação é dizer a eles para nunca mais falarem isso. Eu digo a eles para esconderem todas as previsões e endossos de lamas e apenas se assegurarem de que a criança tenha um treinamento apropriado. Uma vez que os rinpoches estejam bem treinados, atinjam certa idade e estejam aptos a ensinar, então certamente [é a hora de] expor aqueles endossos como ornamentos. Atualmente nós fazemos exatamente o contrário. Nós realçamos todas essas grandes confirmações, cartas de reconhecimento e sinais extravagantes apenas para provar que grandes lamas reconheceram um novo rinpoche. Infelizmente, muitos desses antigos lamas que reconhecem os rinpoches não sabem muito sobre como as coisas são no mundo moderno.

Os devotos, os alunos e os patrocinadores da encarnação anterior de um rinpoche da mesma forma têm a imensa responsabilidade de não estragar o novo rinpoche, especialmente quando ele ou ela são jovens. Claro, isso vai ser muito difícil. Como seres humanos, aqueles que amamos são os que mais queremos agradar.

Fazer essas mudanças é particularmente difícil para aqueles a quem foi dito que eles devem ver a nova encarnação da mesma forma como eles viam a anterior. Ver uma criança que nem mesmo consegue assoar o próprio nariz como a madura, culta e realizada encarnação passada é realmente uma forma de treinamento pessoal da mente de um praticante vajrayana.

Na verdade não é muito diferente da prática de pensar no seu vizinho de porta como sendo um ser sublime. Se tudo isso for tomado individualmente como um treinamento da mente para um praticante e não vai além disso, então está perfeito. Os problemas começam quando espera-se que essas pequenas crianças ajam como suas encarnações anteriores — mantendo a linhagem, propagando e preservando o Darma e portanto se comunicando e se relacionando com os outros. Essas interações podem incluir tudo, desde ter boas maneiras à mesa até ser sensível aos sentimentos dos outros. Essas crianças não tiveram treinamento que as preparasse para isso.

Mesmo que você tenha planos, ambições e expectativas de que a criança futuramente tenha tal posição de respeito, você terá que pelo menos criar as causas e condições para que isso aconteça. Em vez disso, o que os pais e professores da criança, e toda a sociedade tibetana estão fazendo é não deixar que a criança tenha uma experiência humana genuína. Isso é como cortar as asas de um pequeno pássaro e esperar que ele voe como uma águia.

Nessa situação absurda fadada ao fracasso é incompreensível que nos últimos quarenta anos os tulkus tenham se multiplicado em todos os lugares, mais do que em qualquer época da história tibetana. E é ainda mais ridículo que esperemos que essas crianças percorram o mundo sem o equipamento mais básico. São essas expectativas não realistas que criam os problemas. Mesmo para apenas se comunicar com os outros é preciso compreender o que os outros sentem e pensam. Mas a maioria desses rinpoches não teve treinamento prático ou a simples experiência de se relacionar com as pessoas. Na maioria das vezes, tudo o que eles têm é alguma grandiosa teoria intelectual ou acadêmica de que todos os seres têm a natureza de Buda ou que deve-se ser compassivo com todos os seres sencientes.

Por exemplo, quando os rinpoches e lamas estão crescendo, eles não levam em consideração que o dinheiro que um patrocinador está gastando para pagar o almoço foi arduamente ganho e cuidadosamente economizado. E em geral com muito trabalho, sangue, suor, lágrimas e todo tipo de dificuldades. Agora, para voltar à sua pergunta sobre se o sistema de tulkus deve continuar, eu preciso dizer que sim — eu ainda vejo muita utilidade nisso pelo menos nas próximas duas décadas, se não mais. Essa já é uma instituição estabelecida com reconhecido benefício e se for apropriadamente monitorada e atualizada pode continuar a ser muito benéfica. Com certeza não vejo que todo o sistema dos tulkus esteja tão desatualizado que deva ser jogado fora. Mas grandes alterações certamente são necessárias.

Dzongsar Khyentse Rinpoche (o quarto sentado da direita para a esquerda) com dois de seus professores, Dilgo Khyentse Rinpoche (o terceiro sentado da esquerda para a direita) e Khamtrul Rinpoche (o quarto sentado da esquerda para a direita) na época em que recebeu a iniciação de Dam Ngak Dzö de Dilgo Khyentse Rinpoche. 

BDG: Você tem sido um rinpoche por mais de cinquenta anos. O trabalho tem ficado melhor ou mais fácil conforme você fica mais velho?

DJKR: Bem, certamente eu não sou perfeito, mas ao menos a minha geração foi abençoada com alguns dos maiores professores que muito nos inspiraram com os seus exemplos incríveis. Esse tipo de inspiração e exemplo, em minha opinião, está realmente desaparecendo atualmente.

Eu penso que o que você ouve e vê quando você é jovem realmente tem um impacto na sua mente e em toda a sua vida. Apenas para dar um exemplo, minha mãe e meus professores nos repreendiam muito quando desperdiçávamos até mesmo um grão de arroz e eles sempre nos diziam o quão arduamente aquelas oferendas tinham sido conseguidas. Essa mentalidade foi criada em nós desde a tenra idade. Aqueles eram tempos realmente terríveis e incertos— materialmente, politicamente e de outras formas. Ironicamente, hoje eu tomo aquelas dificuldades como bênçãos.

Outro exemplo de algo que realmente me impactou foi que meus professores, como Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche, nunca rejeitaram ou ignoraram ninguém, desde as pessoas aparentemente mais comuns até as supostas elites. Isso ainda me faz sentir culpado sempre que ignoro as pessoas só porque sou muito preguiçoso. Na verdade, eu considero esse sentimento de culpa como uma bênção dos meus mestres. Nos tempos atuais as coisas estão se degenerando tanto que eu acho que a próxima geração de rinpoches nem mesmo sentirá culpa.

Muitas pessoas parecem não se dar conta o quão árduo é ser um rinpoche, especialmente hoje em dia em que os líderes espirituais são vistos com alguma suspeita — e muitas vezes com razão. Particularmente em sociedades em que o budismo é novo, muitas vezes somos vistos como líderes de um culto.

Ao mesmo tempo, quando as pessoas veem um rinpoche como um guia espiritual genuíno, isso também cobra seu preço. Os assim chamados discípulos podem abrir suas mentes e corações para você, mas com frequência, consciente ou inconscientemente, eles o veem como um pai, irmão, marido, amante ou companhia, o que cria muitas expectativas e pressuposições, assim como medos. Isso, por sua vez, pode acarretar em interações incrivelmente tensas e assustadoras com essas pessoas. Projeções contínuas são trocadas entre um rinpoche e suas ou seus discípulos, que constantemente interpretam o humor e as preferências dele do seu próprio modo.

Então em meio ao respeito, espanto, amor e devoção, projeções intermináveis são também feitas e discutidas. Os alunos podem ter um desejo forte de aceitação ou medo de rejeição. Ou se o rinpoche deles parece infeliz num certo dia, eles podem pensar que é por algo que eles ou outros fizeram, quando de fato ele ou ela pode apenas estar com uma gripe.

Então o que quer que um rinpoche diga ou escreva, até fazer uma pequena brincadeira, enviar um texto ou dizer algo inocente como “sinto saudades de você” pode ser interpretado e incitar a imaginação das pessoas. Quando as coisas não funcionam de acordo com as suposições e expectativas de ambos os lados e quando as coisas dão errado como quase sempre acontece, isso pode ficar bem desagradável. E hoje, claro, temos as redes sociais que multiplicam todo tipo de mal-entendido e os tornam ainda piores. Rinpoches e lamas, especialmente os da próxima geração, precisam ser orientados sobre tudo isso. Eu não estou dizendo que devemos dizer a eles para que fiquem distantes das redes sociais, indiferentes e não se comuniquem ou estejam em contato com as pessoas. Essa é uma escolha individual de cada rinpoche. Mas qualquer coisa que um rinpoche faça, simplesmente por ele ou ela serem quem são —pessoas privilegiadas e figuras públicas — haverá consequências para as quais eles precisam estar preparados. Tão logo eles estejam cientes disso e possam aguentar a pressão, é totalmente com eles se irão e como irão se relacionar com as pessoas. Mas atualmente a maioria dos jovens rinpoches não está preparada ou consciente [disso]. Eu conheci pelo menos dois jovens rinpoches que estavam à beira do suicídio porque eles simplesmente não conseguiam lidar com a pressão.

Esses jovens rinpoches precisam de pessoas com quem possam conversar e compartilhar seus altos e baixos sem que elas se escandalizem ou fiquem julgando. Basicamente eles precisam de amigos. Entre muitas outras coisas eles precisam “treinar em ser gente”. E eles precisam de treinamento sobre como se relacionar com o sexo oposto. Na verdade precisam de educação sexual.

BDG: Você gostaria de encerrar com alguma consideração final sobre esse tema?

DJKR: Bem, para voltar à sua primeira pergunta, como é realmente ser um rinpoche, não passa nem perto de ser algo fácil ou glamouroso como as pessoas pensam. Você descobre da pior forma que você foi incumbido pelos outros de abdicar completamente da sua privacidade e passar a sua vida navegando no campo minado das emoções das pessoas, projeções, expectativas, rótulos, interpretações e outros. Mas ao menos quando eu olho para trás, para a minha educação, eu e outros jovens rinpoches daquela geração tivemos a oportunidade de encontrar e receber os mais preciosos ensinamentos de alguns dos mais incríveis e realizados mestres que já pisaram neste planeta. Esse presente, por si só, faz tudo valer a pena e até transforma o maior dos obstáculos e desafios em oportunidades prazerosas de tentar retribuir a extraordinária bondade dos nossos professores.

Eu só posso esperar que a próxima geração de jovens rinpoches, tulkus e khenpos possa imitar aqueles grandes exemplos e colocar todo o esforço em receber e, mais importante, em praticar os ensinamentos do Buda de forma que eles possam proteger esses ensinamentos e práticas e propagá-los no futuro.

* Rinpoche literalmente significa “aquele que é precioso” e no budismo tibetano geralmente se refere a um lama encarnado ou a um professor muito respeitado.

** Penor Rinpoche define tulku como “uma reencarnação de um mestre budista que por sua compaixão pelo sofrimento dos seres sencientes jurou renascer para ajudar todos os seres a atingir a iluminação. *** Escola inglesa de internato para rapazes

**** Khenpo é um título dado pelas escolas Nyingma, Sakya e Kagyu a estudiosos eruditos que tenham completado estudos rigorosos em filosofia budista.

Leia a entrevista original em inglês em: https://www.buddhistdoor.net/features/being-a-rinpoche-a-conversation-with-dzongsar-jamyang-khyentse-rinpoche